quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Excerto de "American Gods" de Neil Gaiman

 O texto original encontra-se aqui.
Primeira Parte

Sombras


As fronteiras do nosso país, senhor? Bem, senhor, a Norte fazemos fronteira com a Aurora Boreal, a Este com o Sol nascente, a Sul fazemos fronteira com a procissão de Equinócios e a Oeste com o Dia do Julgamento.

                Sombra tinha passado três anos na prisão. Ele tinha altura suficiente e um aspecto de “não te metas comigo” na quantidade certa, pelo que o seu maior problema era queimar tempo. Assim mantinha-se em forma e aprendia truques de moedas sozinho e pensava muito no quanto amava a sua mulher.
                A melhor parte – na opinião de Sombra, talvez a única parte boa – de estar na prisão, era a sensação de alívio. A sensação de que tinha chegado ao mais baixo que podia chegar e que tinha atingido o fundo. Não tinha a preocupação de ser apanhado pela autoridade, porque a autoridade já o tinha apanhado. Já não tinha medo do que o amanhã poderia trazer porque já o tinha trazido ontem.
                Não importava, decidiu Sombra, se tinha feito aquilo de que tinha sido acusado ou não. Na sua experiência, toda a gente que tinha conhecido na prisão estava ofendida com alguma coisa: havia sempre algum aspecto onde as autoridades tinham errado, algo que disseram que eles fizeram quando isso não aconteceu – ou não fizeram bem como eles disseram que tinham feito. O que importava era que os tinham apanhado.
                Ele tinha reparado nisso nos primeiros dias, quando tudo, desde a gíria até à má comida eram novidades. Apesar da miséria e do horror completo da encarceração, estava a respirar de alívio.
                Sombra tentou não falar demasiado. Algures em meados do segundo ano ele fez menção da sua teoria a Discreto Lyesmith, o seu colega de cela.
                Discreto, que era um vigarista do Minnesota, fez o seu sorriso assustado. – Pois. – Disse – Isso é verdade. Ainda é melhor quando se recebe a sentença de morte. Aí é que vêm à memória as anedotas sobre os tipos que tiravam as botas a pontapé quando lhes metiam o laço no pescoço porque os amigos sempre lhes disseram que iam morrer com as botas calçadas.
                - Isso é uma anedota? – perguntou Sombra.
                - Claro. Comédia de cadafalsos. É a melhor que existe.
                - Quando foi a última vez que enforcaram um homem neste Estado? – perguntou Sombra.
                - Como raio queres que eu saiba? – Lyesmith manteve o seu cabelo ruivo a fugir para o louro quase sempre rapado. Dava para ver os contornos do seu crânio. – Mas digo-te uma coisa. Este país começou a ir pelo cano abaixo quando pararam de enforcar pessoas. Não há pactos de enforcamento sem terra de enforcado.
                Sombra encolheu os ombros. Nunca viu nada romântico numa sentença de morte.
                Se não se estava condenado à morte, decidiu, então, a prisão era, no melhor dos casos, um retiro temporário da vida por duas razões. Primeiro, a vida escapa-se para a prisão. Há sempre lugares para descer mais abaixo. A vida continua. E, segundo, se aguentarmos, vai chegar o dia em que nos vão deixar sair.
                No início era algo que ainda estava longe demais para permitir que Sombra se concentrasse. Depois, tornou-se num raio de esperança distante e aprendeu a dizer a si mesmo: “também isto irá passar” quando acontecia merda na prisão, como sempre aconteceu. Um dia a porta mágica iria abrir-se e ele iria passar por ela. Assim, foi riscando os dias no seu calendário de Aves Canoras da América do Norte, que era o único calendário que vendiam na esquadra, e o Sol punha-se e ele não o via e o Sol nascia e ele não o via. Praticava truques de moedas com um livro que tinha encontrado no panorama desolador da biblioteca da prisão e fazia exercício e fazia listas na sua mente do que faria quando saísse da prisão.
                As listas de Sombra ficavam cada vez mais curtas. Após dois anos tinha-as reduzido a três coisas.
                Primeiro, ele iria tomar um banho. Seria um banho longo como devia ser numa banheira com bolhas. Talvez lesse o jornal ou talvez não. Havia dias em que pensava de uma maneira e outros doutra.
                Segundo, iria limpar-se com uma toalha, vestir um robe, talvez calçar uns chinelos. Ele gostava da ideia dos chinelos. Se fumasse, estaria a fumar um cigarro naquele momento, mas não fumava. Pegaria na sua mulher nos seus braços (“Cãozinho” - guincharia num terror fingido e com prazer verdadeiro – o que estás a fazer?). Ele levaria-a para o quarto e fecharia a porta. Encomendariam uma pizza se tivessem fome.
                Terceiro, depois de ele e Laura saírem do quarto, talvez uns dois dias após terem entrado, ele ia enfiar-se no seu canto e não se meter em mais sarilhos para o resto da vida.
                - E depois vais ser feliz? – Perguntou Discreto Lyesmith.
                Naquele dia estavam a trabalhar na loja da prisão, a juntar comedouros de aves, algo que era pouco mais interessante do que marcar matrículas de automóveis.
                - Não digas que um homem é feliz – disse Sombra – até ele estar morto.
                - Heródoto – disse Discreto. – Hei, estás a aprender.
                - Quem raio é o Heródoto? – Perguntou O Homem Gelo enquanto montava os lados de um comedouro e o passava a Sombra que o aferrolhou e aparafusou.
                - Um grego morto. – Disse Sombra.
                - A minha última namorada era grega – disse o Homem Gelo. – As merdas que a família dela comia. Nem dava para acreditar. Como arroz embrulhado em folhas. Merda dessa.”
                Homem Gelo tinha o mesmo tamanho e forma de uma máquina de refrigerantes, de olhos azuis e cabelo tão louro que era quase branco. Ele quase tinha desfeito um tipo que tinha cometido o erro de apalpar da sua namorada no bar onde esta dançava e o Homem Gelo era porteiro. Os amigos do tipo chamaram a polícia que prendeu o Homem Gelo e fez uma investigação que revelou que o Homem Gelo tinha fugido de um programa de trabalho condicional dezoito meses antes.
                - O que é que queriam que eu fizesse? – Perguntou o Homem Gelo, ofendido, quando tinha contado todo o conto triste a Sombra. – Eu tinha-lhe dito que ela era a minha namorada. Ia deixa-lo desrespeita-la daquela maneira? Ia? Quero dizer, ele apalpou-a toda.
                Sombra tinha dito – É assim mesmo – e tinha deixado aí o assunto. Uma coisa que ele tinha aprendido há algum tempo era que cada um cumpre a sua pena na prisão. Não se cumpre as penas de outras pessoas por elas.
                Fica no teu canto. Cumpre a tua pena.
                Lyesmith tinha emprestado uma cópia gasta de capa molde do “Histórias” de Heródoto há vários meses. -Não é aborrecido. É porreiro. - Disse ele quando Sombra protestou e disse que não lia livros. – Lê primeiro, depois diz-me se é porreiro”.
                Sombra fez uma cara feia, mas tinha começado a ler e deu por si viciado contra a sua vontade.
                 - Gregos – disse o Homem Gelo com repugnância. – E o que dizem sobre eles nem é verdade. Eu tentei fazê-lo no rabo da minha namorada e ela quase me arrancou os olhos.
                Lyesmith foi transferido um dia, sem aviso. Deixou a sua cópia de Heródoto a Sombra. Estavam uma moeda de cinco cêntimos escondida nas páginas. As moedas eram contrabando: pode-se afiar as pontas numa pedra e abrir a cara de alguém numa luta. Sombra não queria uma arma; Sombra queria apenas algo para fazer com as mãos.
                Sombra não era supersticioso. Não acreditava em nada que não conseguia ver. Ainda assim, ele conseguia sentir o desastre a pairar sobre a prisão nas últimas semanas, tal como o tinha sentido nos dias que antecederam o roubo. Havia um vazio no fundo do seu estômago que ele tentou interpretar simplesmente como o medo de voltar para o mundo lá fora. Porém, não podia ter a certeza. Estava mais paranóico do que o costume e na prisão o costume era muito e era uma ferramenta para a sobrevivência. Sombra ficou mais calmo, mas sombrio do que nunca. Deu por si a observar a linguagem corporal dos guardas, dos outros reclusos, à procura de uma pista para a coisa má que iria acontecer, como se tivesse a certeza que aconteceria.
                Um mês antes estava programado ser libertado. Sombra sentou-se num escritório gelado, de caras com um homem baixo com uma marca de nascença da cor do vinho do Porto na testa. Sentaram-se em lados opostos da secretária; o homem tinha o ficheiro de Sombra aberto à sua frente e segurava uma esferográfica. A ponta da esferográfica fora mastigada sem rodeios.
                - Tem frio, Sombra?
                - Sim, - disse Sombra – um pouco.
       O homem encolheu os ombros. – O sistema é assim – disse ele – as caldeiras só começam a funcionar no dia um de Dezembro. Não sou eu que faço as regras. – Ele percorreu com o seu dedo indicador a folha de papel agrafada no interior do lado esquerdo da pasta.
                - Tem trinta e dois anos?
                - Sim, senhor.
                - Parece mais novo.
                - Tenho uma vida limpa.
                - Diz aqui que tem sido um recluso modelo.
                - Aprendi a minha lição, senhor.
                - A sério? – Ele olhou para Sombra atentamente, a marca de nascença na sua testa foi para baixo. Sombra pensou em contar ao homem algumas das suas teorias sobre a prisão, mas não disse nada. Em vez disso assentiu e concentrou-se em parecer devidamente arrependido.
                - Diz aqui que tem mulher, Sombra.
                - Ela chama-se Laura.
                - E como vai isso?
                - Muito bem. Ela vem aqui ver-me sempre que pode, é uma viagem longa. Escrevemos um ao outro e eu ligo-lhe quando posso.
                - O que faz a sua mulher?
                - É agente de viagens. Envia pessoas a todo o mundo.
                - Como a conheceu?
                Sombra não conseguia perceber a razão de o homem querer saber. Pensou dizer-lhe que ele não tinha nada a ver com isso e depois disse:
                - Ela era a melhor amiga da mulher do meu melhor amigo. Eles organizaram um encontro. Nós gostámos um do outro.
                - E tem um emprego à sua espera?
                - Sim, senhor. O meu amigo Robbie, aquele de quem lhe falei, ele é dono da Muscle Farm, onde eu treinava. Ele diz que ainda tenho o meu antigo emprego.
                Uma sobrancelha levantou-se. – A sério?
                - Diz que acha que vou atrair muita gente. Que vou trazer alguns antigos cronometristas e atrair gente dura que quer ser mais dura.
                O homem parecia satisfeito. Mastigou a ponta da sua esferográfica, depois virou a folha de papel.
                - O que acha da sua ofensa?
                Sombra encolheu os ombros. – Fui estúpido – disse ele, e com sinceridade.
                O homem com a marca de nascença expirou. Pôs vistos alguns itens numa lista. Depois folheou depressa alguns papeis no ficheiro de Sombra. – Como vai daqui para casa? – Perguntou. – De galgo?
                - Vou de avião. É bom ter uma mulher que é agente de viagens.
                O homem franziu as sobrancelhas e a marca de nascença dobrou-se.
                - Ela enviou-lhe um bilhete?
                - Não foi preciso. Enviou-me apenas um número de confirmação. Um bilhete electrónico. Tudo o que tenho de fazer é aparecer no aeroporto daqui a um mês e mostrar o meu B.I. e saio de lá.
                O homem assentiu, rabiscou uma última nota, depois fechou o ficheiro e pousou a esferográfica. Duas mãos pálidas instalaram-se na secretária cinzenta como animais cor-de-rosa. Ele juntou mais as suas mãos, fez uma forma de torre com os dedos indicadores e olhou fixamente para Sombra com os seus olhos avelã aguados.
                - Tem sorte, - disse ele. – Tem alguém para quem voltar, tem um emprego à sua espera. Pode por isto tudo para trás. Tem uma segunda oportunidade. Aproveite-a ao máximo.
                O homem não apertou a mão a Sombra quando este se levantou, nem Sombra esperava que o fizesse.
                A última semana foi a pior. Em alguns aspectos, foi pior do que todos os três anos juntos. Sombra perguntou-se se seria devido ao tempo: opressivo, monótono e frio. Parecia que estava uma tempestade a caminho, mas a tempestade nunca chegou. Sentia-se nervoso e desconfortável, uma sensação no fundo do estômago que lhe dizia que algo estava muito errado. No campo de exercício surgiram rajadas de vento. Sombra imaginou que conseguia sentir o cheiro a neve no ar.
                Ele telefonou à sua mulher, calmo. Sombra sabia que as empresas de telefones cobravam uma taxa suplementar de três dólares em todas as chamadas feitas a partir de um telefone da prisão. Era por isso que os operadores eram sempre tão educados para as pessoas que telefonavam das prisões, decidiu Sombra: eles sabiam que ele lhes pagava o ordenado.
                - Alguma coisa parece estranha – disse ele a Laura. Não foi essa a primeira coisa que lhe disse. A primeira coisa foi “amo-te”, porque é uma coisa agradável de dizer se for sincero e para Sombra era.
                - Olá. – Disse Laura. – Também te amo. O que te parece estranho?
                - Não seii. – Disse ele – Talvez seja o tempo. Parece que se houvesse uma tempestade ficava tudo bem.
                - Aqui está bom. – Disse ela. – As últimas folhas ainda não caíram todas. Se não houver uma tempestade ainda vais conseguir vê-las quando chegares a casa.
                - Cinco dias. – Disse Sombra.
                - Cento e vinte horas e vens para casa. – Disse ela.
                - Está tudo bem aí? Não se passa nada?
                - Está tudo bem. Vou ter com o Robbie hoje à noite. Estamos a planear a tua festa surpresa de boas-vindas.
                - Uma festa surpresa?
                - Claro. Não sabes nada sobre isto, pois não?
                - Nada.
                - É assim mesmo. – Disse ela. Sombra apercebeu-se de que estava a sorrir. Já estava lá dentro há três anos, mas ela ainda conseguia fazê-lo sorrir.
                - Amo-te, querida. – Disse Sombra.
                - Amo-te, cãozinho. – Disse Laura.
                Sombra desligou o telefone.
                Quando se casaram, Laura disse a Sombra que queria um cão, mas o senhorio disse-lhes que o contrato de arrendamento não permitia animais domésticos.
                - Não faz mal. - Disse Sombra – Eu passo a ser o teu cãozinho. O que queres que faça? Que mastige os teus chinelos? Que mije no chão da cozinha? Que te lamba o nariz? Que cheire as tuas virilhas? Aposto que não há nada que um cão saiba fazer que eu não saiba! – E pegou nela como se não pesasse nada e começou a lamber o seu nariz ao mesmo tempo que ela dava gargalhadas e guinchava e depois levou-a para a cama.
                Na fila da cantina Sam Fetisher aproximou-se de Sombra e sorriu, exibindo os seus dentes velhos. Sentou-se ao lado de Sombra e começou a comer o seu macarrão com queijo.
                - Temos de falar. – Disse Sam Fetisher.
                Sam Fetisher era um dos homens mais negros que Sombra alguma vez tinha visto. Podia ter sessenta anos. Podia ter oitenta. Todavia, Sombra já tinha conhecido drogados de trinta anos que pareciam mais velhos do de Sam Fetish.
                - Mhm? – Disse Sombra.
                - Está a aproximar-se uma tempestade. – Disse Sam.
                - Parece. – Disse Sombra – Talvez neve em breve.
                - Não é esse tipo de tempestade. Estão a chegar tempestades maiores do que essas. Estou a dizer-te, rapaz, ficas melhor aqui do que lá fora na rua quando chegar a tempestade.
                - Já cumpri a minha pena. – Disse Sombra. – Na Sexta-Feira vou-me embora.
                Sam Fetish fixou o seu olhar em Sombra. – De onde és? – Perguntou ele.
                - Eagle Point. Indiana.
                - És um cabrão mentiroso. – Disse Sam Fatisher. – Quero dizer as tuas origens. De onde são os teus pais?
                - Chicago. – Disse Sombra. A sua mãe tinha vivido em Chicago em criança e tinha morrido lá há meia vida atrás.
                - Tal como disse. Aproxima-se uma grande tempestade. Fica no teu canto, Rapaz-Sombra. Parece… como se chamam aquelas coisas em que se apoiam os continentes? Uma espécie de placas?
                - Placas tectónicas? – Arriscou Sombra.
                - É isso. Placas tectónicas. É como quando elas se mexerem, quando a América do Norte deslizar para a América do Sul, não vais querer estar no meio. Entendes?
                - Nem um bocadinho.
                Um olho castanho fechou-se num pestanejar lento. – Bem, então não digas que não te avisei. – Disse Sam Fetisher, e levou um pedaço de gelatina de laranja tremente à boca.
                - Não digo.
                Sombra passou a noite meio acordado, a adormecer e a acordar, a ouvir o seu colega de cela resmungar e ressonar na cama debaixo dele. A várias celas de distância um homem queixava-se e uivava e chorava como um animal e, de vez em quando, alguém lhe gritava para se calar. Sombra tentou não ouvir. Deixou que os minutos vazios passassem por ele, solitários e vagarosos.
                Faltavam dois dias. Quarenta e oito horas que começaram aveia e café da prisão e um guarda chamado Wilson que deu uma palmada no ombro de Sombra com mais força do que era necessário e disse:
                - Sombra? Por aqui.
                Sombra revistou a sua consciência. Estava calma, o que não significava, como tinha reparado, numa prisão, que não estava metido em sarilhos. Os dois homens andaram mais-ou-menos lado a lado, os seus pés ecoavam no metal e no cimento.
                Sombra sentiu o medo na garganta, tão amargo como café velho. A coisa má estava a acontecer…
                Havia uma voz na sua cabeça a sussurrar que lhe iam acrescentar mais um ano à sentença, pô-lo na solitária, cortar-lhe as mãos, cortar-lhe a cabeça. Ele disse a si próprio que estava a ser estúpido, mas o seu coração estava a bater acelerado, quase a saltar-lhe do peito.
                - Não te percebo, Sombra. – Disse Wilson enquanto andavam.
                - O que não percebe, senhor?
                - Não te percebo a ti. És calado demais, caramba. Educado demais. Esperas como os velhos, mas tens o quê? Vinte e cinco anos? Vinte e oito?
                - Trinta e dois, senhor.
                - E o que és tu? Latino? Cigano?
                - Não que saiba, senhor. Talvez.
                - Se calhar descendes de pretos. Descendes de pretos, Sombra?
                - Talvez, senhor. – Sombra endireitou-se e olhou directamente para a frente e concentrou-se em não deixar que o homem o irritasse.
                - Ai é? Bem, o que sei é que me assustas como o caraças. – Wilson tinha cabelo louro sujo e uma cara amarela como a areia e um sorriso amarelo como a areia. – Vais deixar-nos daqui a pouco.
                - Espero que sim, senhor.
                Os dois passaram por alguns pontos de vigia. Wilson mostrou sempre a sua identificação. Subiram um lanço de escadas e chegaram à porta do escritório do director da prisão. Tinha o nome do director da prisão, G. Patterson, na porta em letras pretas e, ao lado da porta, uma miniatura de um semáforo.
                A luz superior vermelha estava ligada.
                Wilson premiu um botão debaixo do semáforo.
                Ficaram ali em silêncio alguns minutos. Sombra tentou convencer-se de que estava tudo bem, que na Sexta-Feira de manhã estaria num avião a caminho de Eagle Point, mas não acreditava em si.
                A luz vermelha apagou-se e a verde ligou-se e Wilson abriu a porta. Entraram.
                Sombra tinha visto o escritório do director da prisão algumas vezes nos últimos três anos. Uma vez ele andava a mostrar as instalações a um político. Uma vez, durante um bloqueio, o director tinha falado com eles em grupos de cem para dizer que a prisão tinha gente a mais e, dado que ia continuar a ter gente a mais, o melhor era habituarem-se a isso.
                Visto de perto, Patterson tinha pior aspecto. A sua cara era rectangular com cabelo cinzento cortado em estilo militar. Cheirava a Old Spice. Atrás dele estava uma estante com livros, todos com a palavra Prisão no título; a sua secretária estava limpa na perfeição, vazia com a excepção de um telefone e um calendário que permitia arrancar as folhas Far Side. Ele tinha um aparelho auditivo no ouvido esquerdo.
                - Sente-se, por favor.
                Sombra sentou-se. Wilson ficou de pé atrás dele.
                O director abriu uma gaveta da secretária e tirou de lá um ficheiro, colocando-o depois na sua secretária.
                - Diz aqui que foi condenado a seis anos por assalto á mão armada e agressão. Cumpriu três anos da pena. Devia ser libertado na Sexta-Feira.
                Devia? Sombra sentiu o estômago a revirar-se dentro dele. Perguntou-se quanto mais tempo teria de cumprir pena. Outro ano? Dois anos? Os três restantes? Tudo o que disse foi “Sim, senhor”.
                O director passou a língua pelos lábios. – O que disse?
                - Eu disse “sim, senhor”.
                - Sombra, vamos libertá-lo esta tarde. Vai sair dois dias mais cedo. – Sombra assentiu e esperou pela parte má. O director desviou o olhar para o papel na sua secretária.
                - Isto chegou do Johnson Memorial Hospital em Eagle Point… A sua mulher. Ela faleceu nas primeiras horas da manhã de hoje. Foi um acidente de automóvel. Lamento.
                Sombra assentiu mais uma vez.
                Wilson acompanhou-o até à sua cela, sem dizer nada. Destrancou a porta da cela e deixou Sombra entrar. Depois disse:
                - É uma daquelas piadas da boa notícia e da má notícia, não é? A boa notícia é que o vamos deixar sair mais cedo, a má é que a sua mulher morreu. – Ele riu-se como se tivesse mesmo piada.
                Sombra não disse uma palavra.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma mensagem de Natal de Ricky Gervais: Porque sou ateu

Porque não acredita em Deus? Estão sempre a fazer-me essa pergunta. Tento sempre dar uma resposta sensível e razoável. Algo que costuma ser constrangedor, demorado e inútil. As pessoas que acreditam em Deus não precisam de provas da sua existência e, com certeza que também não as querem para provar que não existe. Estão satisfeitas com a sua crença. Até dizem coisas como “para mim é verdade” e “é a fé”. Mesmo assim dou-lhes a minha resposta lógica porque acho que não ser honesto seria paternalista e indelicado. Por isso é irónico que “Eu não acredito em Deus porque não existe qualquer prova científica que o demonstre e, pelo que sei, a sua própria definição é uma impossibilidade “, é tão paternalista como indelicado.

Arrogante é outra das acusações. O que parece particularmente injusto. A Ciência procura a verdade. E não discrimina. Para o melhor ou o pior, descobre coisas. A Ciência é humilde. Sabe o que sabe e sabe o que não sabe. Baseia as suas conclusões em crenças fundadas em provas sólidas, provas que estão sempre a ser actualizadas e melhoradas. Não fica ofendida quando surgem novos factos. Acolhe o conhecimento. Não se agarra a práticas medievais só porque são uma tradição. Se o fizesse, não íamos tomar vacinas de penicilina, metíamos uma sanguessuga nas calças e rezávamos. Qualquer que seja a sua “crença”, essa nunca será tão eficaz como a Medicina. Pode dizer mais uma vez, “para mim resulta”, mas os placebos fazem o mesmo. O que quero dizer é que Deus não existe. Não estou a dizer que a fé não existe. Eu sei que a fé existe. Estou sempre a vê-la. Porém, acreditar em alguma coisa não a torna verdadeira. A existência de Deus não é subjectiva. Ele existe ou não existe. Não é uma questão de opinião. Pode ter a sua própria opinião, mas não pode ter os seus próprios factos.

Porque é que não acredito em Deus? Não, não, não. Porque é que VOCÊ acredita em Deus? Com certeza que o peso da crença está no crente. O senhor é que começou isto. Se fosse ter consigo e perguntasse, “Porque é que não acredita que eu consigo voar?”, diria, “Porque haveria de acreditar?” ao que eu responderia, “Porque é uma questão de fé”. Se depois eu dissesse “Prove que eu não consigo voar. Prove que eu não consigo voar. Não consegue, pois não?” O mais provável é que me virasse as costas, ou chamasse a segurança ou me atirasse da janela e gritasse: “Então, voe lá, lunático de merda.”
Isto é, claro, uma questão espiritual, a religião é um assunto diferente. Como ateu, não acho que haja algo “errado” em acreditar em Deus. Não acho que exista um Deus, mas a crença n’Ele não faz mal. Se o ajuda de alguma forma, então tudo bem. É quando a crença começa a interferir nos direitos das outras pessoas que a coisa me começa a preocupar. Eu nunca negaria o seu direito de acreditar num Deus. Apenas preferia se não matasse outras pessoas que, por exemplo, acreditassem noutro Deus. Ou apedrejasse alguém até à morte porque o vosso livro de conduta diz que a sua sexualidade é imoral. É estranho que alguém que acredita num poder omnisciente poderoso e sábio responsável por tudo o que acontece, também queira julgar e castigar pessoas pelo que elas são. Pelo que sei, o pior tipo de pessoa que se pode ser é um ateu. Os primeiros quatro mandamentos estão sempre a bater nesta tecla. “Existe um Deus. Que sou Eu e mais ninguém, tu não és tão bom como Eu e não te esqueças disso. (Não mates ninguém só aparece no número 6).

Quando me deparo com alguém que repudia a minha falta de fé religiosa, digo: “Foi assim que Deus me fez”.

Mas de que é que acusam os ateus?
No dicionário define-se Deus como “um criador e vigilante sobrenatural do Universo”. Dentro desta definição incluem-se todas as divindades, deusas e seres sobrenaturais. Desde o início dos registos históricos, que se define pela invenção da escrita pelos Sumérios há cerca de 6000 anos, os historiadores catalogaram mais de 3700 seres sobrenaturais, dos quais 2870 podem ser consideradas divindades.
Por isso, da próxima vez que alguém me disser que acredita em Deus, vou dizer: “Ah, em qual? Zeus? Hades? Júpiter? Marte? Odin? Thor? Krishna? Vishnu? Rá?...” Se me responderem: “Em Deus, simplesmente. Apenas acredito no Deus único”, digo-lhes que são quase tão ateus como eu. Não acredito em 2870 deuses e eles não acreditam em 2869.
Já acreditei em Deus. E com isto refiro-me ao Cristão.
Adorava Jesus. Ele era o meu herói. Mais do que estrelas pop. Mais do que jogadores de futebol. Mais do que Deus. Deus era, por definição, omnipresente e perfeito. Jesus era um homem. Tinha de se esforçar. Tinha tentações, mas derrotou o pecado. Tinha integridade e coragem. Mas Ele era o meu herói porque era bom. E era bom para toda a gente. Não se rebaixava à pressão de grupo ou à tirania ou à crueldade. Não queria saber quem éramos. Amava-nos. Que homem. Queria ser como Ele.
Um dia, quando tinha uns 8 anos, estava a desenhar o crucifixo para trabalho de casa da catequese. Também adorava arte. E a Natureza. Adorava como Deus tinha feito todos os animais. Também eram perfeitos. Belos sem senão. Era um mundo maravilhoso.
Vivia numa casa muito pobre e trabalhadora num subúrbio chamado Reading, cerca de 64 km a oeste de Londres. O meu pai era operário e a minha mãe era dona de casa. Nunca tive vergonha da pobreza. Era quase nobre. Além disso, toda a gente que conhecia estava na mesma situação e tinha tudo o que necessitava. A escola era de graça. A minha roupa era barata e era sempre lavada e passada a ferro. E a mamã estava sempre a cozinhar. Estava a cozinhar no dia em que estava a fazer um desenho da cruz.
 
Estava sentado à mesa da cozinha quando o meu irmão chegou a casa. Ele é 11 anos mais velho do que eu, por isso devia ter 19 anos. Ele era tão inteligente como toda a gente que conhecia, mas era folgado demais. Ele respondia às pessoas e metia-se em apuros. Eu era um bom rapaz. Ia à missa e acreditava em Deus, que alívio para uma mãe da classe trabalhadora. Não sei se sabem, mas onde eu cresci, as mães não tinham assim tantas esperanças de ver os filhos tornarem-se médicos, só esperavam que os filhos não fossem para a prisão. Por isso fazer com que estes acreditassem em Deus faria com que se tornassem bons e cumpridores da lei. É um sistema perfeito. Bem, quase. 75 por cento dos americanos são cristãos tementes de Deus, 75 por cento dos prisioneiros são cristãos tementes de Deus. 10 por cento dos americanos são ateus. 0,2 por cento dos prisioneiros são ateus.
Mas adiante, ali estava eu todo contente a desenhar o meu herói quando o meu irmão mais velho perguntou: “Porque é que acreditas em Deus?”. Era só uma pergunta simples. Mas a minha mãe entrou em pânico. “Bob”, disse ela num tom que eu compreendia o que significava, “Cala-te”. Qual era o mal de perguntar? Se Deus existia e a minha fé era forte não importava o que as pessoas diziam.
Ah… esperem. Deus não existe. Ele sabe e, no fundo, ela também. Era só isto. Comecei a pensar nisso e a fazer mais perguntas e, uma hora depois, era ateu.
Uau. Deus não existe. Se a mamã me tinha mentido acerca de Deus, será que também me tinha mentido em relação ao Pai Natal? Sim, claro, mas que interessa? Continuei a ter prendas. E também as dádivas do meu novo ateísmo. As dádivas da verdade, da ciência, da natureza. A verdadeira beleza deste mundo. Aprendi coisas sobre a evolução (uma teoria tão simples que apenas o maior génio da Inglaterra poderia ter criado). A Evolução das plantas, dos animais e a nossa (com a imaginação, o livre arbítrio, o amor, o humor). Já não precisava de encontrar uma razão para a minha existência, apenas de uma razão para viver. E imaginação, livre arbítrio, amor, humor, divertimento, música, desporto, cerveja e pizza são boas razões para viver.
Porém, para viver uma vida honesta precisam da verdade. Isso foi outra coisa que aprendi naquele dia, que a verdade, independentemente de ser chocante ou incómoda, no fim de contas, leva à libertação e à dignidade.

Então, o que é que a pergunta “Porque é que não acredita em Deus?” significa realmente? Acho que quando alguém pergunta isso, estão a questionar a sua própria fé. De certa forma estão a perguntar: “o que o torna tão especial?” “Porque é que não lhe fizeram uma lavagem ao cérebro como nos fizeram a nós?” “Como se atreve a dizer que sou um tolo e não vou para o Céu? Vá-se foder! Vamos ser honestos, se fosse só uma pessoa a acreditar em Deus, ia ser muito estranho. Mas porque é um ponto de vista muito popular, é aceite. E porque é que é tão popular? É óbvio. É uma proposta interessante. Acreditem em mim e vivam para sempre. Mais uma vez, se este fosse apenas um caso de espiritualidade, não havia mal nenhum.

“Não faças aos outros…” é uma boa regra de algibeira. Eu vivo segundo esse princípio. O perdão deve ser a melhor virtude que existe. Porém não é mais do que isso: uma virtude. Não é apenas uma virtude cristã. Ninguém deve a ninguém o facto de ser bom. Eu sou bom. Simplesmente não acredito que vou ser recompensado por isso no Céu. A minha recompensa está aqui e vem agora. É saber que tento fazer o que está certo. Que tive uma vida boa. E foi aí que a espiritualidade se perdeu. Quando se tornou num pau para bater nas pessoas. “Faz isto ou vais arder no Inferno”.

Não vai arder no Inferno. Mas seja bom na mesma.